O meu interesse pela leitura sempre esteve presente desde que comecei a ler os comics da Turma da Monica e do Tio Patinhas na minha infância. No entanto, ele foi pouco estimulado, na minha família são raras as pessoas que partilhem o meu gosto pela leitura. Se juntarmos o meu maior interesse por hobbies um pouco mais interativos como a televisão e os vídeo jogos, temos o resultado da ignorância da leitura durante a adolescência, pelo menos tudo o que não eram mangás e as maravilhosas fanfics criadas por fãs.
Felizmente, no último ano voltei a ganhar essa paixão graças ao meu adquirido interesse na franquia “Percy Jackson” que me levou a ler sete livros que simplesmente adorei imenso. Entre está renovada paixão comecei a pensar em que outras literaturas poderia explorar e acabei por me deparar com “Os Maias” de Eça de Queiroz, um livro que me aborrecia com as enormes descrições na escola. Esta experiência correu muito bem, pois ao contrário da pequena Katie, a versão adulta achou o livro muito interessante e mais fácil de digerir. Por este mesmo motivo soube logo qual seria a minha próxima vítima, um livro que sempre me fez imensa confusão no secundário, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.
José Saramago tem uma escrita muito peculiar que atrofiava os cabos do meu cérebro, mesmo agora após começar a ler é algo que uma vez ou outra causa-me uma grande estranheza, apesar de reconhecer o que a minha professora falava sobre os diálogos fluírem melhor. Este livro também tem como protagonista Ricardo Reis, um heterónimo de Fernando Pessoa, e deixem-me admitir que nunca fui grande fã do senhor ou poesia no geral. Existe o poema da “Minha Velha Angústia” de Alvaro de Campos que realmente me acompanhou a vida toda desde que mo foi dado a conhecer, mas tirando isso nunca tive grande conexão com o género ou escritor.
Com isto penso que conseguem entender que realmente o livro nunca me cativou, mas por esse mesmo motivo tornava-o o mais interessante para explorar agora com uma maior maturidade. Neste preciso momento vou a meio do livro e estou até a gostar bastante, achei interessante como podemos interpretar Ricardo Reis como alguém com alguma ansiedade social através da sua obsessão em seguir sempre as normas sociais e a preocupação com o que os outros possam pensar nele.
No entanto, o que me traz aqui hoje é umas palavras que o Doutor Ricardo proferiu perante uma conversa com um guarda, sendo estas as palavras exatas: “queira Deus que nunca se extinga a caridade para que não venha a acabar-se a pobreza…”
Assim que acabei de ler essa frase enquanto estava na camioneta, tive que parar um pouco e matutar o significado destes dizeres do nosso doutor, pode parecer algo um pouco sem nexo, afinal é um absurdo como é que ao retirar a caridade da equação iríamos acabar com a pobreza? O problema surge quando eu realmente consigo entender completamente o raciocínio do protagonista, afinal uma Katie mais jovem na escola chegou mesmo a apresentar uma composição com um pensamento muito parecido. Na minha juventude tinha uma forte crença de que auxiliar os outros não era nada tão benevolente como fazem parecer e afirmam. É comum ouvir afirmações de pessoas que auxiliam os outros pelo bem dos outros, mas eu ia um passo mais a frente, sempre protestei que as pessoas auxiliam os outros porque isso é apenas mais uma ação que lhes faz sentirem-se bem com eles próprios.
Obviamente uma coisa não tem que impedir a outra, ao mesmo tempo que trazemos o bem às pessoas, também o podemos igualmente trazer a nós. É só engraçado como muitos tentam esconder o outro lado da moeda. Eles fazem voluntariado, doações e pequenos gestos porque no fim do dia sentem-se bem com eles próprios, porque pensam que no lugar deles também gostavam de ter ajuda e quem sabe esta boa ação não origine a que outros tenham boas ações com eles. Não consigo deixar de pensar que existe algo inerentemente egoísta em todas as nossas ações.
Isto leva-me às palavras de Ricardo Reis, é algo tão óbvio e uma crítica perfeitamente simples ao funcionamento da nossa sociedade e das diferenças de classes. A única maneira de existir a grande distinção entre os ricos e os pobres é através das desigualdades sociais que nos acompanham desde os tempos pré-históricos. Literalmente não existiria um sem o outro, ao mesmo tempo que sem a caridade nunca poderia existir a pobreza, pois isso significava o fim das desigualdades sociais. Um mundo onde deixássemos de fazer uso da caridade, seria um mundo onde todos temos acesso aos mesmos direitos, uma utopia em que ninguém passasse por necessidades e onde a diferença entre o rendimento mínimo e o máximo não fosse tão gritante.
Aliás, o cinismo da caridade pode ser muito bem contemplado na maneira como grandes empresários e figuras públicas a usam para criar toda uma narrativa de benevolência em seu redor. É muito comum ver figuras como o Elon Musk que realmente fazem grandes donativos, mas para as suas próprias fundações, deixando várias dúvidas da imparcialidade e do verdadeiro uso desse dinheiro. Outro aspeto comum é empresas que apoiam os funcionários com donativos para grandes causas como o aborto e direitos LGBT, para depois por detrás das cortinas apoiarem e investirem em leis que expressam exatamente o contrário.
Os membros da comunidade LGBT, melhor que ninguém, sabem o apoio enorme que recebemos em junho para assim que o mês acabar a pintura mudar completamente e voltarmos a ser atacados. Se quiserem um exemplo concreto têm a grande Disney que tanto da a cara como aliada, como anda de braço dado com algumas das leis mais polémicas que querem invalidar a nossa existência. Se quiserem outro exemplo gritante e bem atual olhem para o Facebook que com a chegada do Trump tem visto serem revertidas muitas das suas ações mais inclusivas. Mais uma vez o exemplo mais extremo e negativo de que todos temos um motivo egoísta por detrás das nossas boas ações.
Por isso esta crítica no livro de José Saramago é tão impactante e intemporal, pois tem toda a razão naquilo que diz. A própria palavra de caridade já transmite a ideia de que alguém grande vai auxiliar alguém muito abaixo dele, enquanto para mim a palavra ajuda demonstra muito mais o sentimento de duas pessoas de pé de igualdade que tentam completar as suas qualidade de modo a ambos crescerem. Essa, sim, é a realidade que devíamos almejar e se Deus quiser que deixe de ser necessária a caridade, pois isso significa que as classes mais baixas têm as condições que merecem para viver feliz e livremente.

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