Nas minhas férias, depois de muitas horas em Kingdom Come Deliverance e Dredge senti a necessidade de jogar algo mais linear, olhando para o meu backlog ouve um jogo em particular que me chamou a atenção sendo esse Ken Follets Pillars of The Earth. Na capa do jogo tinha um jovem como uma aparência fixe e cabelos vermelhos, pelo que assim que cliquei start esperava controlar logo essa figura. Isso acabou por não ser bem assim, pois antes de o ter em mãos deparei-me com um grande homem loiro, com a sua família nos bosques a procura de abrigo.
Essa primeira narrativa foi interessante, demonstrando a temática mais simples de point and click da jogatina, assim como o seu foco na história e no desenvolvimento dos personagens. Acabei por controlar uma versão mais jovem do rapaz ruivo, intercalado com mais personagens no decorrer da história como a filha de um nobre Aliena e o padre Philip. Não vou mentir controlar a criança desde a sua infância até a sua fase adulta foi realmente a melhor parte do jogo, quando encarnava esse papel era quando mais me divertia e deixava absorver nas vivências apresentadas. No entanto, o personagem que acabou por deixar em mim a maior marca foi precisamente aquele que em alturas até cheguei a achar um pouco entediante.
Tenho alguns membros da família bastante religiosos e outros que são crentes num nível menor, mas no que diz respeito a minha pessoa sempre tive uma relação conflituosa com a religião. Por um lado, realmente existem muitas coisas boas que ela reproduz, como o incentivo da caridade, do amar o outro mesmo que sejamos diferentes, toda a esperança e ajuda espiritual inerentes desta misticidade celestial. Todavia, como alguém com um pensamento critico, homossexual e defensora dos direitos humanos, não consigo por de lado todas as coisas negativas que a religião carrega há séculos. A quantidade de ódio e pensamentos extremistas que os mesmos estabelecimentos que deveriam simbolizar a bondade e o amor demonstram todos os anos, os seus seguidores doentios que apenas vislumbram como certo aqueles que são iguais a eles e que têm toda a mesma cultura e rezam ao mesmo Deus. Os pensamentos vão ainda mais para sul quando me deparo com a falta de provas científicas e a simples realização de que se esta famosa identidade divina existe porque permite todo o sofrimento que cai em tantas pessoas.
Estas são questões com as quais até hoje me debato. Normalmente em obras de ficção costumamos ter uma perspetiva bastante imparcial independentemente do lado que esteja a ser representado, por esse mesmo motivo fiquei tão cativada pelo desenvolvimento de Philip. Ele começa como uma pessoa cem porcento crente, um completo devoto de Deus que segue e ensina os seus ensinamentos. Isto vai se reestruturando conforme acompanhamos o desencadear de uma guerra para decidir quem irá suceder ao trono, acompanhada de nobres com péssimas intenções e Bispos que deviam ser os principais defensores do povo, com as mãos ainda mais sujas.
Estes ingredientes acabaram por tornar um momento banal já muito representado como a perda de fé do nosso padre até chegar a crise existencial com a qual eu sempre me debati. Muitas obras iam se ficar por aqui e entregar a mensagem de que Deus não existe, as cenas religiosas são uma invenção da humanidade para manipular os outros para o seu ganho e que no fim o ser humano é o maior monstro de todos, não merecendo salvação nenhuma. Também poderia ter escolhido mostrar alguma prova convicta de que não, afinal Deus existe.
Felizmente, se me permitem dizer, o jogo apresentou uma proposta mil vezes melhor e na minha opinião a mais realista possível. No seu capítulo final, Philip chega a conclusão que não precisamos de mosteiros ou grandes figuras humanas simbólicas para nos dizerem como e onde podemos rezar, no que devemos acreditar. Claro que podemos ter pessoas que partilham as suas ideias, mas acima de tudo o importante é saber que o nosso corpo é o verdadeiro templo de Deus, que conseguimos chegar a ele em qualquer lado. Desacreditando assim a soberania da Igreja e os seus profetas que manipulam o cidadão comum em prol da sua soberania e riqueza, facto este que é facilmente comprovado tanto no jogo como na nossa realidade.
Por fim, temos a mensagem que me fez ajoelhar e enaltecer com todas as minhas forças a obra de arte à minha frente, a ideia de que os milagres, mesmo que sejam mentira, não fazem mal desde que isso represente algo bom para as pessoas. Eu sei, contraditório com o que afirmei anteriormente, afinal então é mau quando a Igreja manipula, mas agora vens-me dizer que mentiras descaradas assim não faz mal? E a resposta é exatamente, deixem-me explicar, seria o equivalente a uma lei incondicional para preservar a coabitação e bem-estar entre todos que é: se não tens nada de bom para dizer, não digas nada.
No jogo, os amigos de Philip apresentam um milagre à população geral que rapidamente acredita. Estas pessoas passaram por milhares de atrocidades e encontravam-se numa situação difícil, com este falso milagre elas começaram a ganhar mais confiança e a ver algumas soluções para o fim dos seus males. Nós o jogador temos uma certa liberdade sobre como abordar estes acontecimentos e com base nas minhas escolhas, Philip foi contra os outros membros do seu mosteiro, escolhendo, em vez da dura verdade, preservar o raio de esperança que começou a crescer nas pessoas de quem ele tem que cuidar. Afinal porque destruir algo bom e positivo? Óbvio que a partir do momento que é prejudicial deve ser combatido, mas se for o oposto porque não viver um bocadinho no surreal?
Está foi a mensagem com a qual fiquei e se calhar um quase ponto final na minha visão sobre o tema, não precisamos de grandes organizações e está tudo bem em desacreditar las quando estas prejudicam mais do que ajudam. No entanto, não tem mal nenhum em acreditar em algo mais, uma força que nos guia, um símbolo que nos fortalece, um milagre surreal. É real? Não interessa, a nossa crença torna-o real o suficiente para nos ajudar, dar conforto e criar uma boa comunidade. No fim o que importa é que sigamos, respeitando o outro e com esperança, se for preciso uma entidade mística ou um milagre para que as pessoas não percam esta chamada está tudo certo. Só não se deixem manipular e cair na tentação dos egoístas que só vos querem mal e ganham com a confusão entre nós.

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